
A Morte Segundo Estácio de Saa
Poesia · 1968 · Rio de Janeiro
Vinte e três anos separam Ilha Doida deste primeiro livro de poesia de Joaquim Ferrer – anos em que o autor nunca deixou de escrever, mas em que nada deu à estampa. Escrito no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1959, o livro evoca no título Estácio de Sá, o fundador da cidade: é a partir dela – das suas avenidas, praças e arranha-céus – que estes quarenta e sete poemas olham a vida moderna e a morte que a atravessa.
O olhar é concreto e corrosivo. Um boi é trucidado pela multidão em plena avenida; uma praça pública é vendida e loteada «em proveito próprio»; do vigésimo nono andar, a vida vê-se «realmente achatada». Quatro dos poemas partem de notícias de jornal, transcritas em nota no final do volume – a atualidade entra no livro em estado bruto e sai transformada em sátira e elegia. A par da cidade, correm os grandes temas do poeta deslocado: os anos que passam como criaturas hostis («este ano em que fui raro / passou há pouco por mim»), a pátria à distância («ó pátria minha deserta / aqui ando a regressar-te») e a memória de uma ilha perdida – «tive uma ilha feliz / nalgum recanto da memória / (...) – e perdi-a!» – em que ressoa o romance de 1945.
As dedicatórias – a Eduardo Lourenço, a Gilberto Freyre, ao pintor Milton Dacosta – situam o autor entre as duas margens do Atlântico. Saudado à chegada pela crítica dos dois países, o livro abriu o ciclo de poesia a que se seguiriam Objectos Recuperados (1969) e Ornitorrincos (1970).
Gratuito · leitura em qualquer dispositivo
Detalhes
- Autor
- Joaquim Ferrer
- Género
- Poesia
- Edição original
- Livros de Portugal · Rio de Janeiro · 1968
- Esta edição
- Edição digital gratuita · Espólio de Joaquim Ferrer · 2026
- Revisão e composição
- Beatriz Ferrer
- Páginas
- 90
- Formato
- PDF · 0,5 MB
- ISBN
- em atribuição
- Depósito legal
- em atribuição
Da crítica
«A Morte Segundo Estácio de Saa» é um raro e belo testemunho da angústia urbana de hoje. (...) Ironia analítica de uma sociedade de consumo que aliena o homem, visão apocalítica de um mundo que sossobra obcecado na «razão histórica» das coisas: o feiticismo das mercancias. Todas as ideologias arguciosas e fiscais dos seus adeptos levam a sua conta nesta confissão inexorável. Mas o valor poético do livro não é inferior à «mensagem». O lirismo de Joaquim Ferrer esconde na violência da verdade a ternura do homem (...).
Humor que corrói os versos de «A Morte Segundo Estácio de Saa», essa catársis do homem inspirado graças à intervenção do homem lúcido (...)
No nosso panorama cria ele [A Morte Segundo Estácio de Saa] um espaço próprio e introduz uma voz de fantasia lírica a que somos pouco afeitos e uma visão quase burlesca do real (...) em que o poeta mesmo se envolve (...) Superiores os poemas de puro delírio satìricamente lírico (...) Visão que passa ('Quebrei já tanta Coisa') e passa com sucesso e sem se confundir com eles, nos meridianos de Sá-Carneiro, Álvaro de Campos e Manuel Bandeira. Inegável originalidade a que não é fácil encontrar essas «fontes» ou paralelos a que os críticos gostam de recorrer quando os poemas lhes põem problemas...
«A Morte Segundo Estácio de Saa» chega-nos como um eco lírico de uma personalidade sempre original, inquieta e largamente humana.