
Ornitorrincos
Poesia · 1970 · Lisboa
Ornitorrincos é o terceiro livro de poesia de Joaquim Ferrer, publicado em 1970, depois de A Morte Segundo Estácio de Saa (1968) e Objectos Recuperados (1969). São sessenta e um poemas sob o signo de um animal impossível: o ornitorrinco, mamífero de bico de pato que põe ovos, criatura que não se deixa classificar – como o próprio poeta.
O livro é um bestiário. Cães sobretudo – de carne, de pedra, vadios –, mas também aves, um leopardo, escaravelhos, crocodilos, pombos. Muitos falam e discutem: um cão de granito insiste que a sua verdade é só sua e não a do poeta; um leopardo explica que o devora por ferocidade herdada dos avós; outro cão apenas queria «outra vida mais festiva». O poeta reconhece-se nesta fauna – «dif'rente de tudo eu sou / e de todos sou dif'rente / por isso não contem comigo!» – e no poema de abertura chega a inverter a criação: «quem sabe seremos apenas / dos cachorros invenção?»
Muitos outros poemas voltam-se para dentro, sobre um eu que nunca coincide consigo. Como em Estácio de Saa, o poeta é um pequeno Estado – em «Meu governo», «este poder que não há», cansado das «tantas pessoas» que já foi. Divide-se para se ver – «ver nu / quem se viu nunca» –, duvida se dorme ou se acorda, e às vezes recusa-se por inteiro: quando lhe batem à porta, responde «não estou».
Do avesso do eu, o livro abre-se ao mundo – e vê-o com a mesma lógica torta. O poeta ergue aos ombros um candidato «solto na rua» e é desfeiteado por ele, vende canhões porque «canhão dá mais» do que o pão, sente as máquinas do progresso, que «querem abrir estradas / aqui onde estou». Em «Muro», uma linha de arame farpado atravessa a casa, corta a varanda em duas e seca a roseira porque «a terra está dum lado / e a roseira do outro» – e da parede pendem «novos corpos / como roupa a enxugar». E, no meio disto, o poeta e o seu único leitor: «só eu leio / aquilo que escrevo / e me surpreendo».
Impresso na Tipografia Lousanense, na Lousã – a poucos quilómetros de Miranda do Corvo, onde o autor nascera –, o livro tem capa do próprio e a dedicatória «para a Virca». Nas suas primeiras páginas, Joaquim Ferrer anunciava dois livros «a publicar» que nunca chegaram a sair – Mar dos Humores e A Desprevenida Viagem –, hoje entre os títulos que o espólio conserva por editar.
Gratuito · leitura em qualquer dispositivo
Detalhes
- Autor
- Joaquim Ferrer
- Género
- Poesia
- Edição original
- Lisboa · 1970
- Esta edição
- Edição digital gratuita · Espólio de Joaquim Ferrer · 2026
- Revisão e composição
- Beatriz Ferrer
- Páginas
- 100
- Formato
- PDF · 0,7 MB
- ISBN
- em atribuição
- Depósito legal
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