
Ilha Doida
Romance · 1945 · Coimbra
Ilha Doida retoma Adrião, o menino de Rampagodos (1941), quando é arrancado à liberdade da vila de Crispim – aos ninhos, à serra, aos pastores e à adega do pai – e enviado para o Colégio de S. Caetano, em Coimbra.
Em Ilha Doida Joaquim Ferrer constrói um retrato vivo da passagem da infância à adolescência. As aulas e os estudos vigiados, as férias no campo e na praia, os episódios religiosos – a doutrina, a confissão, a penitência –, as primeiras inquietações do desejo, o medo e a culpa perante um Deus que se confunde com o Destino e com uma «Força Oculta» que tudo espreita, compõem a matéria deste romance de aprendizagem. No centro está o sonho que lhe dá título: algures nos mares há de existir ainda uma ilha por descobrir – a sua ilha –, promessa de evasão e de liberdade que alimenta planos de expedições, piratarias e, por fim, a fuga real, numa noite em que um clarão rubro sobe no céu de Coimbra.
A força do romance está também na linguagem. Ferrer escreve colado à fala dos rapazes – as bravatas, os despiques, o calão do colégio, alcunhas como Balão Cativo, Trinca-Espinhas ou Bispo Negro – e daí vêm o humor e a frescura que atravessam o livro. Ilha Doida fixa uma idade, um ambiente e uma forma singular de descobrir a vida.
Escrito em Miranda do Corvo em 1943, foi publicado em 1945 pela Coimbra Editora, na coleção «Novos Prosadores», com capa de Victor Palla. Na receção da época, Eduardo Lourenço destacou-o na revista Vértice, situando-o entre a herança queirosiana e o realismo concreto dos neorrealistas.
Gratuito · leitura em qualquer dispositivo
Detalhes
- Autor
- Joaquim Ferrer
- Género
- Romance
- Edição original
- Coimbra Editora · 1945
- Esta edição
- Edição digital gratuita · Espólio de Joaquim Ferrer · 2026
- Capa
- Victor Palla
- Revisão e composição
- Beatriz Ferrer
- Páginas
- 406
- Formato
- PDF · 2 MB
- ISBN
- em atribuição
- Depósito legal
- em atribuição
Da crítica
Crítica à edição original (Coimbra Editora, 1945).
(...) Deste tema, difícil pelo que a puberdade tem de indeciso e invertebrado e mais difícil ainda, se atendermos a que se trata de estudantinhos, vindos na maioria da classe média endinheirada e sem problemas suscetíveis de dramatização muito profunda, fêz Joaquim Ferrer, um romance com verdadeiro interêsse. (...) «Ilha Doida» tem uma linguagem cuidada e um estilo próprio (...) uma mistura de queirozianismo e do realismo concreto, crú e chão dos nossos neo-realistas.
(...) Joaquim Ferrer tem o condão de no-la dar (a fase da vida cheia de miragens) neste seu belo livro, com o máximo de realidade. Tanto o pequeno Adrião como os seus companheiros de Colégio estão pintados com um rigor, uma exactidão tais que nos sentimos como que transportados a êsse saudoso tempo dos nossos 14 e 15 anos, vivendo nós o romance como se fôra o nosso e o da nossa época.
(...) colecção «Novos Prosadores» nos revela um novo autor: Joaquim Ferrer, que escreveu um romance a que chamou «Ilha Doida» – e desde já uma referência à bonita capa de Palla – cheio de interêsse novelesco e escrito num estilo cáustico. Assinalemos por isso, o seu autor, como um dos futuros valores da nossa literatura de ficção, a emparceirar com alguns dos poucos novos que ultimamente se têm afirmado escritores de facto.