
Rampagodos
Romance · 1941 · Lisboa
Rampagodos é o nome de um sítio – «pinheiros, bouça, olival, barreira de Rampagodos» – e da casa que o tomou: o casarão antigo do dr. Rezende, médico da vila de Crispim. É ali que nasce Adrião, a quem a mãe faz dar o nome do santo do dia contra a vontade do pai, republicano e anticlerical, que lhe queria chamar Vítor Hugo. Em cinquenta e dois capítulos breves, o primeiro romance de Joaquim Ferrer acompanha-o do berço ao limiar da adolescência.
Nas primeiras páginas, o colchão de onde o bebé gatinha é uma jangada perdida num sobrado imenso, a mãe é «aquela mulher enorme» que o salva pelos ares, e um bombeiro de capacete dourado, visto na cidade, só pode ser o rei. À medida que Adrião cresce, crescem com ele a rua e a malta – o Chico, o Manelão, O-da-Ponte –, a escola e a cana da Índia, a doutrina da Ti Sacristôa, os assaltos às figueiras do abade e as batalhas à pedrada, as púrrias, em que vence pela astúcia o que lhe falta em força.
À volta do menino desfila Crispim inteira: o abade Vouzelas, glutão e distraído, que esquece o peru de Rifães; os três contos do Comendador Castanheira, que compram o trajeto da procissão; os métodos de «educação moral» das senhoras do croché – uma linha atada da perna do menino à perna da mesa, que devia ensinar-lhe o remorso. O Zé da Anastácia morre na pedreira e o patrão só paga o enterro; O-da-Ponte adormece com fome, a sonhar o fim dos taleigos; e Adrião, olhando os que trabalham, quer um dia trabalhar ao pé deles.
Batido, fechado no quarto escuro, orgulhoso de se fazer «malhadiço», Adrião descobre a morte no dia de finados e no velório do homem da Anastácia, e descobre o segredo dos nascimentos, que lhe faz ruir «todo o seu edifício da vida». No fim, ganha a batalha à pedrada e janta de castigo no quarto escuro – com medo «de ter um ódio àquela gente, à família inteira». É este menino que reaparecerá, quatro anos depois, atrás do portão do colégio, em Ilha Doida (1945).
O romance foi começado e acabado em Lisboa, em Outubro de 1940, e saiu com desenho de capa de António Augusto de Oliveira, dedicado ao pai do autor, o Dr. Marques Ferrer. A apreensão pela censura reduziu-lhe drasticamente a circulação: figura hoje no rol dos livros raros e proibidos.
Gratuito · leitura em qualquer dispositivo
Detalhes
- Autor
- Joaquim Ferrer
- Género
- Romance
- Edição original
- Livraria Portugália · Lisboa · 1941
- Esta edição
- Edição digital gratuita · Espólio de Joaquim Ferrer · 2026
- Capa
- António Augusto de Oliveira
- Revisão e composição
- Beatriz Ferrer
- Páginas
- 230
- Formato
- PDF · 1,3 MB
- ISBN
- em atribuição
- Depósito legal
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